• Sereias, Rock ‘n’ roll e o Povo da Floresta

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Delírios Criativos - Ilustração: Henrique Vieira Filho

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Se você imagina a vida de um curador de museu regada a vernissages elegantes, taças de vinho e silêncios contemplativos diante de uma obra abstrata, lamento estragar a ilusão. 

Na vida real, especialmente comandando o Ecossistema ReArte aqui em Serra Negra, minha mente opera mais como um computador multitarefa. 

Conciliar as obrigações cinematográficas que temos com o Museu da Imagem e do Som/SP com o que os Ministérios Federais (Cultura e Direitos Humanos) demandam não é exatamente uma tarefa simples; é um exercício diário de sobrevivência psíquica. No “papel”, tudo parece uma equação burocrática impecável; na minha cabeça, porém, vira uma gincana de mágicas.

Vejam só o tamanho do enrosco para este mês de junho. Pelo viés do som, nossa parceria como Pontos MIS – Museu da Imagem e do Som nos trouxe uma oficina (minicurso gratuito!) de trilhas sonoras com o produtor Anderson Zeule. Excelente ideia, claro. 

Mas, na hora de “bolar” as exibições de cinema das quartas-feiras para “preparar o ouvido” do público, caí no meu próprio paradoxo curatorial: juntei na mesma prateleira o lirismo comovente da animação nacional O Menino e o Mundo (imperdível, um dos melhores filmes que vi na vida!) com as sombras aterrorizantes do suspense psicológico de O Gabinete do Dr. Caligari

É o tipo de combinação que faria qualquer terapeuta erguer a sobrancelha. Mas, a verdade confessável é que eu adoro esse caos. Quero ver o jovem do TikTok, que vai aprender a sonorizar seus vídeos na oficina, sentado ao lado do cinéfilo tradicional que chora ouvindo a trilha de Chega de Saudade.

E você acha que o malabarismo acabou? Que nada. Do outro lado da mesa, os Ministérios nos confiam a 15ª Mostra Cinema e Direitos Humanos, focada em emergência climática e ancestralidade. 

Para não transformar a tela do museu num tribunal climático cinzento e enfadonho, garimpei lindas e divertidas animações em stop-motion. Achei preciosidades lúdicas como Gavī: a voz do barro e Òsányìn: O segredo das folhas. São os povos nativos no s dando uma lição de futuro com a leveza de um desenho animado para todas as idades.É o tipo de cinema que me faz lembrar por que escolhi esse trabalho: a arte devolve a vida e a liberdade que a burocracia cultural do governo às vezes tenta travar.

O desafio maior acontece quando as luzes da sala de projeção se acendem e eu preciso fazer as paredes físicas do museu e da biblioteca conversarem com o que passou na tela. 

Se a temática indigenista se resolve fácil com o nosso farto acervo de pinturas com personagens nativos, por outro lado, ilustrar visualmente as pautas musicais é mais desafiador. 

A solução veio no susto: juntei pinturas mitológicas de sereias e seus cantos hipnóticos com as pinceladas da minha própria série, “Muros Emocionais”, inspirada na ópera-rock The Wall, do Roger Waters. E temos, também, o fantástico acervo de cartazes de cinema, graças à generosidade do querido historiador, Nestor Leme! Sim, enfiei o Pink Floyd, as sereias e o Nestor no mesmo balaio visual!Portanto, se vir um sujeito conversando com uma sereia pintada enquanto cantarola Another Brick in the Wall e come pipoca, não chame o resgate. Sou só eu, feliz da vida, tentando orquestrar mais um mês de atrações por aqui!

Henrique Vieira Filho Administrator

Henrique Vieira Filho é artista plástico, agente cultural (SNIIC: AG-207516), produtor cultural no Ponto de Cultura “ReArte” (Certificado Ministério da Cultura), Museólogo no Museu Rearte (reconhecido pelo IBRAM/Ministério da Cultura), gestor Pontos MIS (Museu da Imagem e do Som/SP), diretor de arte (MTE 0058368/SP), produtor audiovisual (ANCINE: 49361), escritor, jornalista (MTE 080467/SP), educador físico (CREF 040237-P/SP), psicanalista, sociólogo (MTE 0002467/SP), historiador, professor de artes visuais, pós-graduado em Psicanálise, em perícia técnica sobre artes e Biblioteconomia.

http://lattes.cnpq.br/2146716426132854

https://orcid.org/0000-0002-6719-2559

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