Dizem que o teatro de rua é a arte suprema de domar o caos! Na recente apresentação da peça “Os Meliantes do Cortiço 9“, escrita e dirigida pela querida Dalila Praxedes Frazão, o desafio não era apenas o burburinho natural da cidade; era uma verdadeira guerra acústica…
De um lado, a poesia visceral da Cia. Raízes da Alma a ocupar o palco com dignidade. Do outro, um restaurante próximo que decidiu transformar o ato de servir drinques em um simulado de desastre ambiental, disparando berros de “BOMBEIRO!” a cada novo pedido.
Para quem navega no espectro autista, a vida não possui um botão de volume. Convivo com a hiperacusia, uma hipersensibilidade que faz com que meu cérebro não consiga filtrar ou “abaixar” os sons do mundo; ele os recebe em estado bruto e, muitas vezes, fisicamente doloroso.
Enquanto eu tentava mergulhar na narrativa de Dalila, meu sistema nervoso era bombardeado por granadas sonoras. Fiz as contas — e meus ouvidos confirmaram o cálculo: três garçons berrando juntos atingem aproximadamente 95 decibéis (a unidade que mede a intensidade do som). Para se ter uma ideia, isso equivale a uma furadeira industrial ou uma serra circular operando ao lado da sua poltrona. É o que chamamos de ruído de impacto, um som brusco que aciona o nosso modo de “luta ou fuga” instantaneamente.
A ironia é digna de uma comédia de costumes. A poucos metros dali, a Cia. Raízes da Alma projetava vozes e corpos para manter a “quarta parede” — aquele limite invisível entre atores e público — buscando superar o berreiro alheio. Deu certo, pois, ao final, a plateia de cerca de cem pessoas, explodiu em aplausos entusiasmados.
Sabe quantos decibéis duzentas mãos batendo produzem? Cerca de 85 dB. Ou seja: o esforço coletivo de dezenas de seres humanos para celebrar a arte ainda é mais silencioso e harmonioso do que o marketing agressivo de sujeitos servindo um drinque.
O aplauso é um som percussivo, espalhado e orgânico, enquanto o berro do restaurante é uma invasão de espaço que ninguém deveria ser obrigado a consumir.
Já vivemos esse mesmo “incêndio sonoro” quando o nosso Ponto de Cultura ReArte apresentou o espetáculo de Sereismo, com canto, dança e exposição, na mesma praça. Parece que a etiqueta cultural — aquele conjunto de regras de convivência que garante a imersão na obra — ainda luta para ser compreendida em espaços abertos.
O teatro de rua é democrático, sim, mas exige bom senso para que a “magia” não seja assassinada por um “spam sonoro”. Para o meu cérebro, ocorre o que a acústica chama de recrutamento auditivo, quando um pequeno aumento no volume é percebido como um salto gigantesco de dor física. Minha cabeça vira uma bigorna e o grito alheio é o martelo.
Felizmente, nem os pseudos-“bombeiros” conseguiram apagar a verdadeira chama que iluminou a praça: o talento dos “Meliantes” no palco!
No teatro, o silêncio não é um vácuo, mas uma prece à espera de uma resposta. E a única quebra de protocolo que realmente importa — e que é imensamente bem-vinda — é o trovão dos aplausos, aquele som orgânico que não agride, mas agradece.
E, é para essa harmonia que convido a todos para o nosso próximo encontro no Museu ReArte. No dia 9 de março, às 19h, abriremos as portas para “A Era de Ouro do Cinema”, com a presença do nosso arquivista da alma, Nestor Leme.
Vamos trocar o ruído dos 95 decibéis pelo brilho silencioso dos clássicos cartazes de cinema e pelos “causos” de uma época em que a criatividade não precisava berrar para conquistar.
Henrique Vieira Filho é artista plástico, agente cultural (SNIIC: AG-207516), produtor cultural no Ponto de Cultura “ReArte” (Certificado Ministério da Cultura), Museólogo no Museu Rearte (reconhecido pelo IBRAM/Ministério da Cultura), gestor Pontos MIS (Museu da Imagem e do Som/SP), diretor de arte (MTE 0058368/SP), produtor audiovisual (ANCINE: 49361), escritor, jornalista (MTE 080467/SP), educador físico (CREF 040237-P/SP), psicanalista, sociólogo (MTE 0002467/SP), historiador, professor de artes visuais, pós-graduado em Psicanálise, em perícia técnica sobre artes e Biblioteconomia.

Henrique Vieira Filho é artista plástico, agente cultural (SNIIC: AG-207516), produtor cultural no Ponto de Cultura “ReArte” (Certificado Ministério da Cultura), Museólogo no Museu Rearte (reconhecido pelo IBRAM/Ministério da Cultura), gestor Pontos MIS (Museu da Imagem e do Som/SP), diretor de arte (MTE 0058368/SP), produtor audiovisual (ANCINE: 49361), escritor, jornalista (MTE 080467/SP), educador físico (CREF 040237-P/SP), psicanalista, sociólogo (MTE 0002467/SP), historiador, professor de artes visuais, pós-graduado em Psicanálise, em perícia técnica sobre artes e Biblioteconomia.
http://lattes.cnpq.br/2146716426132854
https://orcid.org/0000-0002-6719-2559
Contando com mais de 100 exposições entre individuais e coletivas, em galerias, polos culturais e museus em diversos países, suas obras estão disponíveis tanto em galerias consagradas, como a Saatchi Art, quanto em sua galeria própria, a Sociedade Das Artes, até os mais singelos espaços alternativos.
Atualmente radicado no interior de SP, dedica-se, em especial, ao Slow Art Movement, que prega a apreciação afetiva, “sem pressa” das artes, para todas as camadas da sociedade e ao Polo Cultural ReArte, em que abre espaço a novos talentos artísticos e à integração das mais diversas formas de artes, por meio de mixagem e releituras.
Editor, autor, pesquisador e parecerista nos periódicos Artivismo (ISSN 2763-6062), Revista TH (ISSN 2763-5570) e Holística (ISSN 2763-7743), conta com centenas de artigos publicados e vinte livros, além de colaborações, entrevistas e consultorias para Jornal da Tarde, O Estado de São Paulo, Diário Popular, Jornal O Serrano, Revista Elle, Revista Claudia, Revista Máxima, Revista Veja, Revista Planeta, Revista Capricho, Revista Contigo, Revista Saúde, Revista Boa Forma, Rádio Globo, Rádio Gazeta, Rádio Eldorado, Rádio Nova, TV Globo (Jornal Nacional, Bom Dia Brasil, Fantástico, etc.), TV Gazeta (Telejornal, Mulheres, Manhã na Paulista), TV Record, SBT (Telejornal, Jô Soares Onze e Meia, etc.), TV Jovem Pan (Telejornal, Opinião Livre, etc.), TV Cultura, TV Bandeirantes, Rede Mulher, TV Rio.