• O Protesto Que Virou Festa

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Festa Inclusiva de TODAS as Nações - Ilustração de Henrique Vieira Filho

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Neste primeiro de maio, enquanto o mundo se divide entre o descanso e a memória das lutas operárias, Serra Negra nos convida a uma reflexão curiosa: como foi que o grito por direitos se transformou no aroma de um yakisoba ou em uma massa al dente?

Houve um tempo em que a data carregava o peso das greves, das reivindicações, do eco distante de Chicago e das vozes que exigiam dignidade no trabalho. 

Mas, ao longo do século XX, o Brasil assistiu a uma das manobras mais astutas da nossa história política. Getúlio Vargas, com seu faro de “pai dos pobres” e estrategista de primeira, percebeu que o conflito de classes era indigesto para o feriado. 

Sua solução? Despolitizar o 1º de maio, trocando o palanque pelo palco e o protesto pela pedagogia. Se o trabalhador queria ser ouvido, que fosse em coro, celebrando a “harmonia nacional”.

Com o tempo, essa estratégia ganhou um ingrediente extra: a solidariedade e, claro, o turismo. Cidades como Guaíra, Piracicaba e a nossa Serra Negra descobriram que, se não podíamos resolver todas as tensões do trabalho, podíamos ao menos unir as nações ao redor de uma mesa beneficente. 

O feriado virou “Festa das Nações“, uma transmutação quase alquímica onde o suor do trabalho se converte em arrecadação para entidades sociais e lazer para o visitante.

Recentemente, uma nova camada somou a essa tradição: a festa se tornou profundamente instagramável. Bandeirinhas, trajes típicos, pratos coloridos, danças coreografadas — tudo parece pedir registro! 

Aqui, no Museu ReArte, maio também é o mês da imagem  — de fotografia, de registros, de olhares que tentam capturar aquilo que, por natureza, escapa. Enquanto nossas quintas-feiras são dedicadas a filmes consagrados pela estética visual, preparamos o terreno para a oficina “Fotografias Para Redes Sociais”, no dia 22, com a sensibilidade de Natália Tonda, fotógrafa do Museu da Imagem e do Som. 

Simultaneamente, aqui também teremos a 24ª Semana Nacional de Museus, promovida pelo Instituto Brasileiro de Museus – IBRAM, cujo tema “Museus: unindo um mundo dividido”, ampliando o conceito de nação para além da geografia.

Que tal incluir a “Nação Indígena”, que resiste com a força da Sereia Iara e a esperteza do Saci, ou da “Nação LGBTQIAPN+”, que também empunha sua bandeira, tingida pelas cores do arco-íris?

Para nós, unir nações é acolher identidades, do cinema Noir de Hitchcock à fotografia contemporânea que ensina a enquadrar o afeto. 

A Festa das Nações deixa de ser apenas um evento gastronômico para se tornar uma metáfora: um mosaico de identidades que insistem em coexistir. 

Entre um prato típico e uma fotografia bem enquadrada, seguimos negociando o sentido de comunidade. 

Talvez a maior “obra” de um trabalhador seja justamente esta: a construção de um território onde todos caibam. O trabalho dignifica, é verdade; mas é a arte, a festa e a memória que nos tornam, de fato, humanos. 

Henrique Vieira Filho Administrator

Henrique Vieira Filho é artista plástico, agente cultural (SNIIC: AG-207516), produtor cultural no Ponto de Cultura “ReArte” (Certificado Ministério da Cultura), Museólogo no Museu Rearte (reconhecido pelo IBRAM/Ministério da Cultura), gestor Pontos MIS (Museu da Imagem e do Som/SP), diretor de arte (MTE 0058368/SP), produtor audiovisual (ANCINE: 49361), escritor, jornalista (MTE 080467/SP), educador físico (CREF 040237-P/SP), psicanalista, sociólogo (MTE 0002467/SP), historiador, professor de artes visuais, pós-graduado em Psicanálise, em perícia técnica sobre artes e Biblioteconomia.

http://lattes.cnpq.br/2146716426132854

https://orcid.org/0000-0002-6719-2559

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