Neste primeiro de maio, enquanto o mundo se divide entre o descanso e a memória das lutas operárias, Serra Negra nos convida a uma reflexão curiosa: como foi que o grito por direitos se transformou no aroma de um yakisoba ou em uma massa al dente?
Houve um tempo em que a data carregava o peso das greves, das reivindicações, do eco distante de Chicago e das vozes que exigiam dignidade no trabalho.
Mas, ao longo do século XX, o Brasil assistiu a uma das manobras mais astutas da nossa história política. Getúlio Vargas, com seu faro de “pai dos pobres” e estrategista de primeira, percebeu que o conflito de classes era indigesto para o feriado.
Sua solução? Despolitizar o 1º de maio, trocando o palanque pelo palco e o protesto pela pedagogia. Se o trabalhador queria ser ouvido, que fosse em coro, celebrando a “harmonia nacional”.
Com o tempo, essa estratégia ganhou um ingrediente extra: a solidariedade e, claro, o turismo. Cidades como Guaíra, Piracicaba e a nossa Serra Negra descobriram que, se não podíamos resolver todas as tensões do trabalho, podíamos ao menos unir as nações ao redor de uma mesa beneficente.
O feriado virou “Festa das Nações“, uma transmutação quase alquímica onde o suor do trabalho se converte em arrecadação para entidades sociais e lazer para o visitante.
Recentemente, uma nova camada somou a essa tradição: a festa se tornou profundamente instagramável. Bandeirinhas, trajes típicos, pratos coloridos, danças coreografadas — tudo parece pedir registro!
Aqui, no Museu ReArte, maio também é o mês da imagem — de fotografia, de registros, de olhares que tentam capturar aquilo que, por natureza, escapa. Enquanto nossas quintas-feiras são dedicadas a filmes consagrados pela estética visual, preparamos o terreno para a oficina “Fotografias Para Redes Sociais”, no dia 22, com a sensibilidade de Natália Tonda, fotógrafa do Museu da Imagem e do Som.
Simultaneamente, aqui também teremos a 24ª Semana Nacional de Museus, promovida pelo Instituto Brasileiro de Museus – IBRAM, cujo tema “Museus: unindo um mundo dividido”, ampliando o conceito de nação para além da geografia.
Que tal incluir a “Nação Indígena”, que resiste com a força da Sereia Iara e a esperteza do Saci, ou da “Nação LGBTQIAPN+”, que também empunha sua bandeira, tingida pelas cores do arco-íris?
Para nós, unir nações é acolher identidades, do cinema Noir de Hitchcock à fotografia contemporânea que ensina a enquadrar o afeto.
A Festa das Nações deixa de ser apenas um evento gastronômico para se tornar uma metáfora: um mosaico de identidades que insistem em coexistir.
Entre um prato típico e uma fotografia bem enquadrada, seguimos negociando o sentido de comunidade.
Talvez a maior “obra” de um trabalhador seja justamente esta: a construção de um território onde todos caibam. O trabalho dignifica, é verdade; mas é a arte, a festa e a memória que nos tornam, de fato, humanos.
Henrique Vieira Filho é artista plástico, agente cultural (SNIIC: AG-207516), produtor cultural no Ponto de Cultura “ReArte” (Certificado Ministério da Cultura), Museólogo no Museu Rearte (reconhecido pelo IBRAM/Ministério da Cultura), gestor Pontos MIS (Museu da Imagem e do Som/SP), diretor de arte (MTE 0058368/SP), produtor audiovisual (ANCINE: 49361), escritor, jornalista (MTE 080467/SP), educador físico (CREF 040237-P/SP), psicanalista, sociólogo (MTE 0002467/SP), historiador, professor de artes visuais, pós-graduado em Psicanálise, em perícia técnica sobre artes e Biblioteconomia.

Henrique Vieira Filho é artista plástico, agente cultural (SNIIC: AG-207516), produtor cultural no Ponto de Cultura “ReArte” (Certificado Ministério da Cultura), Museólogo no Museu Rearte (reconhecido pelo IBRAM/Ministério da Cultura), gestor Pontos MIS (Museu da Imagem e do Som/SP), diretor de arte (MTE 0058368/SP), produtor audiovisual (ANCINE: 49361), escritor, jornalista (MTE 080467/SP), educador físico (CREF 040237-P/SP), psicanalista, sociólogo (MTE 0002467/SP), historiador, professor de artes visuais, pós-graduado em Psicanálise, em perícia técnica sobre artes e Biblioteconomia.
http://lattes.cnpq.br/2146716426132854
https://orcid.org/0000-0002-6719-2559
Contando com mais de 100 exposições entre individuais e coletivas, em galerias, polos culturais e museus em diversos países, suas obras estão disponíveis tanto em galerias consagradas, como a Saatchi Art, quanto em sua galeria própria, a Sociedade Das Artes, até os mais singelos espaços alternativos.
Atualmente radicado no interior de SP, dedica-se, em especial, ao Slow Art Movement, que prega a apreciação afetiva, “sem pressa” das artes, para todas as camadas da sociedade e ao Polo Cultural ReArte, em que abre espaço a novos talentos artísticos e à integração das mais diversas formas de artes, por meio de mixagem e releituras.
Editor, autor, pesquisador e parecerista nos periódicos Artivismo (ISSN 2763-6062), Revista TH (ISSN 2763-5570) e Holística (ISSN 2763-7743), conta com centenas de artigos publicados e vinte livros, além de colaborações, entrevistas e consultorias para Jornal da Tarde, O Estado de São Paulo, Diário Popular, Jornal O Serrano, Revista Elle, Revista Claudia, Revista Máxima, Revista Veja, Revista Planeta, Revista Capricho, Revista Contigo, Revista Saúde, Revista Boa Forma, Rádio Globo, Rádio Gazeta, Rádio Eldorado, Rádio Nova, TV Globo (Jornal Nacional, Bom Dia Brasil, Fantástico, etc.), TV Gazeta (Telejornal, Mulheres, Manhã na Paulista), TV Record, SBT (Telejornal, Jô Soares Onze e Meia, etc.), TV Jovem Pan (Telejornal, Opinião Livre, etc.), TV Cultura, TV Bandeirantes, Rede Mulher, TV Rio.